Itabira-IpoemaQuis terminar meu mês de Outubro com minha primeira viagem de bike um pouco mais longa, me preparando para próximos trajetos aí sim mais ousados, e também para visitar pela primeira vez uma cidade vizinha de Itabira, minha nova morada. Meus equipamentos não eram muito adequados (uma bike super simples e um jogo de pneus e câmaras q estão nela desde 2006, e q não sei como ainda não tinham me dado problemas - e de fato não me deram!) nem meu físico estava preparadíssimo, mas meu objetivo era apenas chegar ou tentar chegar - levasse o tempo que fosse.
O trajeto teve 34km de extensão, e gastei pouco mais que 5 horas para concluí-lo! A máquina fotográfica é de fato a melhor amiga do cicloturista - não porque cada mergulho é um flash, mas pq cada flash é uma boa desculpa para descansar.
A altimetria do caminho é bandida; mesmo que você não entenda nada de gráficos, dá pra ter uma ideia do que é: imagine-se subindo e descendo esses tracinhos...

Acordei cedo e parti alguns minutos depois das 7 horas (sempre planejo olhar o relógio, e sempre esqueço). A bike ficou assim:

E a primeira dificuldade foi descê-la por essa escada:

Aos não-itabiranos, uma atração no caminho: a Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade (tem uma clássica estatuazinha dele ali, mas eu não ia atravessar a rua pra fotografar pra vcs!)

Do outro lado da rua, um templo da Igreja Universal do Reino de
Dióóóóóóósss!!

Pausa para preparar pra subida da Rua Santana à direita; vista de resquícios de arquitetura antiga à esquerda:

No início da longa subida da Rua Santana, temos a impressão de que percorreremos um longo trecho de arquitetura histórica preservada, o que não se confirma. A cidade não teve planejamento algum para manter qualquer tipo de unidade arquitetônica no centro histórico e proximidades.

Mas achei umas construções bacanas; uma para vender, uma para alugar, e a outra provavelmente para cair!



Como nunca tinha subido a Rua Santana, acabei descobrindo quão inúteis foram minhas viagens para São Paulo pra cuidar de assuntos do mestrado; podia ter ido via satélite!

Achei interessante a natureza reivindicando o acesso à rede elétrica:

Ao fim da subida e após a rotatória e o viaduto sob a linha férrea, temos o estádio do Valério:

Ver essas bandeiras me lembrou um
trecho de uma música do Skank (ouça a partir de 1m e 6s) que levei anos para entender, devido à ágil dicção (
flâmula pendurada na parede do quarto!!):

Foi através da máquina abaixo...

Que você teve a oportunidade de ver o céu azul da seguinte imagem:

Mas o preço cobrado pela Vale foi alto: levou embora o Pico do Cauê (que provavelmente estaria ocupando a maior parte deste azul risonho e límpido).
Primeira ponte do caminho:

E primeiro mata-burro (a intenção era contar e registrar todos):

Confirmação: ainda não nos perdemos!

Eu adoro placas, não só as que nos indicam o caminho, como as que trazem informações úteis: subindo a serra, de bike, considero esta absolutamente indispensável!

Esse caminhãozinho parece um brinquedinho de longe, mas te garanto que é maior do que possa imaginar:

Vai um pouquinho de minério aí? Venda pra China que ficará rico!

A seguir, primeiro e único túnel:

Tive um certo receio de passar por ele, apesar de curtíssimo; também não acharia bacana cair nesse buraquinho:

Parece que não foi só a placa que resistiu às queimadas:

Vista superior do complexo do Cauê. A água borrifada é uma espécie de "parede" para evitar que a poeira de minério se espalhe pela cidade. Devo dizer que não adianta muito:

Eu achei que aí tinha muito urubu; em breve vocês descobrirão que eu estava enganado!

Uma amostra dos caminhos da destruição:

Mais uma pra quem não entendeu bem:

E uma combinação fatal:

Logo no início de uma descida de 3 km, tem-se uma ampla vista da cidade. Fotografei pra tentar achar minha casa depois, garanto que tá por ali!

Sem imagens da descida, pessoal! Ela termina onde também termina o asfalto, e uma placa nos ajuda a não ficarmos perdidos. Para Ipoema, não vamos "pra frente", preste atenção à seta: vamos "pra cima"!!!

O asfalto ficou pra trás:

O primeiro fusca amigo passou por mim, desrespeitando totalmente a sinalização e me deixando ar puro para respirar.

Chevette amigo também teve:

O que seria este espécime que fica entrando e saindo a 50 m?

Comecei a pedalar com uma mão no guidão, e a outra acionando a câmera como um atirador alucinado, pra tentar mostrar a urubuzada me sobrevoando:

Eu já devia estar fedendo, mas não tanto assim. É que estávamos passando pelo Aterro de Inertes de Itabira:

A partir daí ganhei um amigo que me acompanhou por alguns quilômetros:

Ele se mostrou muito destemido, cruzando comigo o segundo mataburros:



Eu temi muito por sua integridade física, pois ele não parecia desistir de me seguir. Nas subidas, ele ia ao meu lado; nas longas descidas, me acompanhava à distância mas logo me alcançava na seguinte ladeira acima. Eu não avistava água no caminho, e também não encontrei maneira de dividir minha água com ele. Cheguei a ensiná-lo a comer castanhas de caju - o que eu sabia que não ia adiantar muito. Felizmente, em algum momento que nem vi, ele desistiu, e não alcançou comigo o terceiro mata-burros:

Há alguns pontos de ônibus no caminho, pra felicidade dos habitantes das redondezas. Mas nesse aí o amigo bovino vacilou...

Acho que esta placa tomou muito sol e pouca lua:

O quarto mata-burros era tão chique que pela primeira e última vez uma placa indicava sua chegada:

Tinha até sombra e água fresca (mentira, só sombra):

Mais uma da série de placas inúteis; explicando: a descida já vinha há muito tempo. Se os freios não estivessem funcionando, não estaria inteiro pra ler essa conservadíssima sinalização:

Eu não sabia o que queria dizer essa placa (apesar de já ter ouvido uns trocadilhos parecidos), mas achei "estaile" bater a foto da bike perto dela. Editado: descobri, via
Roneijober, que a fazenda Cubango foi a primeira morada de Elke Maravilha no Brasil, pra onde ela se mudou aos 6 anos de idade.

E o quinto mata-burros!

Coisa mais estranha: a estrada de terra vira de asfalto.

Precisando até de aviso aos mais empolgadinhos:

Mas não vai durar muito, como podem ver já da próxima curva:

Flagrei uma ocorrência rara da natureza, a bosta camuflada:

Sei que parece ser excremento eqüino, mas achei mais legal pensar ser obra do único boi que fotografei no caminho. Ele parece ser mesmo um mestre nas técnicas de camuflagem:

Tirei a foto abaixo porque o tiozinho da "carruagem" (acho que só dá pra ver se ampliar) conversava com os animais numa língua estranha...

Nesta encruzilhada, parei pra esperar alguém passar e me dizer se o caminho era pra cima ou pra baixo:

Como ninguém aparecia, aproveitei pra mijar, não sem antes tirar meu capacete, pra que ninguém me reconhecesse:

Cogitei instalar uma vara de bambu na bike (opa!), pra que eu ficasse mais visível no caminho:

Ou, então, utilizá-la como os bravos cavaleiros medievais:

Percebendo que eu estaria mais para pescador, abandonei as fantasias e rumei pra escolha ladeira acima da encruzilhada. Essa palmeira me ajudou a manter o pensamento positivo, imaginando que o vento poderia me levar sempre adiante:

Surpresa no meio de um bambuzal; na hora achei que fosse um beija-flor mas acabei descobrindo que não é. Trata-se da
Ariramba da cauda ruiva, belíssimo pássaro, veja fotos em detalhes
nesta galeria do flickr.

Ao fim do bambuzal estava o sexto mata-burros, que acabei esquecendo de registrar pois encontrei com um motoqueiro, para quem perguntei se eu estava no caminho certo. Minha preocupação era grande em estar subindo em vão! Felizmente o trajeto era o correto.
A seguir, o registro de mais uma vítima de nossas estradas (lembrando que um caminho de terra como esse não é propriamente uma rodovia violenta): um acidente de ônibus na década de 70 interrompeu vidas de variadas formas - tanto pela queda ribanceira abaixo, quanto por ataque de cobras cascavéis (agradeço ao Roneijober pela informação).

Como perdermos o sexto, vai o registro do sétimo, enorme!

E outro trecho curto de asfalto. É possível ver o início e o fim. A pergunta que não cala: pra quê??

Uma das poucas chácaras/fazendas/sítios/ranchos que fotografei; acho chato invadir a privacidade das pessoas:

Essas ruínas também me deixam com uma interrogação na cabeça:

Tudo junto: o oitavo mata-burros marca a passagem para o asfalto, que passa por cima da pontinha que passa por cima do rio e logo vira terra de novo. À direita, pista local da marginal!

Aqui o Shell Gás (?) desce redondo!

As placas e seus mistérios: estaríamos a caminho de "Pofma"??

Quando vi esta placa imaginei estarmos próximos; ledo engano, 8 km de terra ainda nos esperavam!

Os mataburros 9 e 10 não passaram batidos, mas eu acho que teve um décimo primeiro que avancei legal, pois era no fim de uma descida e não queria desperciçar o dom da inércia!


Já devíamos estar beirando o meio-dia e o sol castigava; a água chegava ao fim mas não o caminho. A essa altura eu já pedalava chacoalhando a cabeça, assoviando, gritando car*****lho e cheguei, pasmem, a cantar músicas do Guilherme Arantes. Alucinações tomavam minha mente, como quando atravessei o
Grand Canyon:

O mata-burros 11 ou 12 era uma séria armadilha, pois suas barras eram em sentido longitudinal, e não transversal como em todos os outros:

Este era um dos últimos se não o último ponto de ônibus antes da cidade, anunciando nossa cerveja favorita (se não pelo sabor, certamente pelo preço):

Avistei uma antena de telefonia celular e orei para que estivesse chegando; algumas curvas e morros acima estava alcançando os limites do perímetro urbano de Ipoema! Não me envergonhei ao anunciar minha chegada aos berros.

Era mais ou menos 12:30 e havia saído de casa há umas cinco horas ou mais. Comi muitas castanhas e duas barras de cereais no caminho, mas a fome tava braba! No restaurante Termas do Rei, ataquei o primeiro prato:

E em seguida o segundo, que veio acompanhado gentilmente de uma bandejinha de bolinhos de arroz, apimentados!

Me alegrou ver que boa parte das verduras, legumes e temperos vinham da horta do próprio restaurante:

E também fiquei feliz porque o banheiro era limpo e cristalino, e tinha duchinha!

Alimentado e aliviado, rumei para a rodoviária pra descobrir como voltar. No caminho, me incomodei com a mistura de estilos:


Esta placa me deixou um pouco transtornado; depois pensei que poderia haver outra Montes Claros que não a MOC City, terra do pequi:

É tão bom quando as pontes mantém separados os carros dos pedestres; Itajubá, acorde!

Na rodoviária, tomei um sorvete com ótima relação custo-benefício (3 bolas por 1 real). Pena que a moça tinha dificuldade pra entender as coisas: assim como vinham 3 bolas, expliquei 3 vezes que queria chocolate, abacaxi e coco, mas veio flocos ao invés de coco. Bão tamém. Não deu tempo de fotografar o sorvete! Mas registrei outra sorveteria, que estava fechada mas achei simpatiquinha:

Pude fotografar o fim da vida útil do meu pneu traseiro: perdi quatro cravos/travas no caminho pedregoso. O problema não foi perdê-las, o problema é 'quisso', provavelmente, é pq passara da hora da aposentadoria.

Como eu era pura poeira, suor e fedor, debaixo (e tb um pouco acima) de três camadas de filtro solar, tomei praticamente um banho no banheiro da rodoviária(não é pra isso que serve?), me enxuguei com uma camiseta e vesti outra. Ao fundo, detalhe escroto do mictório: se há mesmo um vazamento, por que não mijar direto no balde?

Passei bastante tempo esperando esse guichê abrir; na placa dizia que abria às 14:30. Às 15:20 ainda estava fechado e resolvi sair pra pedalar, quando cruzei com a funcionária. Interceptada, me revelou que não havia ônibus da Saritur no sábado (uuhh!!), e que eu deveria esperar um ônibus de outra empresa, com saída às 19h.

Já não lembro mais a ordem das coisas, pois fui e voltei da rodoviária umas mil vezes. Registrei minha passagem pela igreja da praça central (ou a praça é que era da igreja?)

E, seguindo o que numa cidade como Mariana se chamaria "Rua Direita", achei esta construção bacana:

E a Pousada Quadrado, que pelo que entendi é a pousada do restaurante onde almocei. Eu entrei lá e andei um pouco pelos corredores mas ninguém apareceu; como não queria assustar nenhum ser vivente saí à francesa:

Vi também a Pousada Dona Euzébia, mas estava sem paciência para descobrir onde era a entrada:

Entendi que esses chalezinhos também eram para hospedagem, mas nada me faria descer pra perguntar:

Placas com dizeres africanos:

O mata-burros marcava o fim do asfalto, e pelo jeito o fim do boi, também:

Eu gosto de algumas coisas toscas, mas achei essas indicações meio demais:

Voltei todo o caminho até o lado oposto da cidade, onde, no trevo de chegada, há um tótem da Estrada Real. Marquei minha presença ali.

Alguém cogitou subir a escadinha?

A essa altura, o ônibus que me levaria de volta a Itabira já havia chegado, e eu já guardara a bike e as tralhas no bagageiro, mas ainda faltava umas duas horas para o embarque. Saí pra caminhar e decidi seguir pelo menos uma parte do caminho pra Bom Jesus, que eu não tivera coragem de ir de bike, pra ver como era.

E qual não foi a surpresa ao ser bem-vindo a Ipoema com tanto charme? (hum, boiolei!)

Estava na
Pousada Tropeiro Real, uma das melhores pedidas de hospedagem em Ipoema. Bati um longo papo com o fotógrafo Roneijober Andrade, sócio da pousada, que me mostrou fotos incríveis e deu dicas preciosas de passeios. Voltarei lá, de certo.

E quem sabe, de quebra, uma visita ao Morro Redondo? Sinta o drama nesta foto do próprio Roneijober, e informe-se mais em
http://abraceomorroredondo.blogspot.com:

Em algum momento da tarde visitei o Museu do Tropeiro; o único instantâneo meu que achei interessante não foi do museu, mas dos fundos de uma casa vizinha, através de uma janela do museu:

Já estava esquecendo de registrar a praça, onde o pessoal bebe e joga truco:

De volta à rodoviária, esperei meu busão partir saboreando o corriqueiro néctar:

Nesse meio-tempo recebemos a visita do lobo-guará de Ipoema:

E finalmente parti:

Ao me preparar para o banho, em casa, achei que continuava de meias!

Bem, tentei ser econômico nos relatos, pessoal! Pra quem quiser fazer esse trajeto, coloquei maiores detalhes sobre as rotas aqui:
http://www.bikely.com/maps/bike-path/Itabira-IpoemaAbraços a todos!
6 comments:
Nino!
Me diverti demais lendo o teu relato!!!!
Nosssssa quanta arapuca pros boi!!!
Um dia da minha viajem pelo Chile um cachorro me acompanhou por 70km!!!!!!
Nussa! Engraçado que a gente conquista a confiança deles fácil, sem fazer nada... já de minha parte, demorei a entender o que ele queria! No começo da escolta canina, eu estava ressabiado e incomodado, e ainda meio assustado pelos urubus.
A certa altura do campeonato eu já achei que teria que voltar pra casa com um novo morador!
Itabira é bonita!
mas essa poeira de minério nao faz mal para a saúde?
muito legal o seu relato,
bjos
Lilian
Passo muito por ali para ir a casa dos meus avós, em Cachoeira Alta, e de tanto que já vi essas imagens, tornou-se tão comum. Mas, depois destes comentários vou ter outra visão. Talvez a que tive quando criança. Amei! Simplesmente hilário!
muito legal, mas faltou a foto da Escola Ipocarmo . que tem uma vista linda da serra
Lucimar, faltou muita coisa! Minha principal intenção era ver se eu "güentava"!!! Numa próxima darei um "chego" na Ipocarmo e outros lugares bacanas. Abraço!
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